A podridão mole, é uma doença muito conhecida no meio orquidófilo, é sem duvida a doença responsável pelos maiores índices de perdas de plantas entre os orquidófilos que cultivam suas plantas em ambientes que estão sujeitos às chuvas diretas ou semi-diretas. Alguns dados coletados entre cultivadores mostram que as infecções são em media até 10 por cento das plantas e em alguns casos sabe-se que pode atingir até 30 por cento de plantas infectadas no orquidário.
Pois bem, a podridão mole (nome comum da doença) é causada por uma bactéria conhecida por Pectobacter carotovola (Ex. Erwinia carotovola) Essa bactéria produz enzimas pectinolíticas, ou seja, enzimas que degradam pectatos de cálcio da lamela média junto à parede celular, causando extravasamento do suco celular e, consequentemente, a podridão-mole. Quando ocorre esse extravasamento do suco celular, primeiramente os tecidos apresentam a forma de anasarca (encharcamento dos tecidos) evoluindo para escurecimento do suco celular causado por reações enzimáticas, e isso em um curto espaço de tempo, causando um odor desagradável, que por sinal esse odor é sinal característico dos danos por bactérias do gênero Erwinia, por isso a doença é tão facilmente identificada.
Essa bactéria tem fatores comuns entre outras bactérias no que diz respeito à sua instalação no tecido vegetal, quando comparado à infecção por outras bactérias fitopatológicas, e o conhecimento desses fatores é muito importante para compreendermos o tratamento mais adiante.
Esses fatores seriam, portanto, a facilidade de contaminação propiciada por ferimentos nas plantas; ou seja, a bactéria pode se instalar no tecido vegetal através de um ferimento causado por tratos culturais, através das aberturas estomáticas, e até mesmos dos hidatódios, que são orifícios que se encontram nas terminações das nervuras foliares, ou seja, nos bordos foliares. A necessidade da presença de água livre no limbo foliar, associada às elevadas temperaturas, são vitais para que a bactéria possa alcançar as células da planta, e se proliferar com rapidez, por isso é nos períodos chuvosos e quentes que ocorrem em maiores níveis as contaminações nos orquidários.
Pois bem, podemos começar a falar sobre manejo fitossanitário e antes de tudo é necessário que você caro leitor, saiba por que estou escrevendo manejo ao invés de tratamento. Manejo, porque não existe uma “porção” mágica, não existe o “abra cadabra” da solução da podridão mole, o que existe são medidas integradas, que uma vez observadas e cuidadosamente aplicadas com certeza resultaram em no mínimo uma brusca queda nos índices de contaminação em seu orquidário, caso contrario eu não ousaria tomar o tempo que gastará lendo esse material, se não pudesse te oferecer algo que realmente fará a diferença. Vou dividir essas medidas em partes para melhor entendimento:
Nutrição: Quando estudamos os princípios da agricultura orgânica, uma coisa muito interessante a se observar é o ensinamento do papel da nutrição vegetal na prevenção de pragas e doenças, sabemos que um organismo é tão menos susceptível a enfermidades quanto maior equilíbrio nutricional apresenta; e uma das coisas que tenho observado ao ler os meterias que varias entidades seja particular ou associações tem publicado, e materiais esses que tenho meus motivos para discordar, é a maciça divulgação de planos nutricionais que enfatizam apenas o fornecimento de macro-nutrientes primários, é como se a orquídea não necessitasse de micro nutrientes em ambiente de viveiro, só se fala em aplicação de N-P-K, Nitrogênio, Fósforo e Potássio, mas deixarei os detalhes sobre esse assunto para um próximo artigo, para falar de um determinado nutriente especifico que não costuma ser citado nessas literaturas, o Ca (Cálcio).
Também não quero me prender muito ao comentário de todos os papeis que tem o Cálcio na nutrição vegetal, porem um desses papeis, são de muito interesse em se levando em consideração o assunto em questão; uma das principais funções do Cálcio na planta é constituir as paredes celulares e sabe-se que o Cálcio nessa constituição atribui à parede celular, resistência e elasticidade, aspectos esses fundamentais para a prevenção da podridão mole, pois temos usado uma nutrição que tem se preocupado muito com nitrogênio, o que confere à planta crescimento explosivo, porém muitas vezes mal constituído em sua formação nutricional, o que faz com que a planta em um futuro não muito distante acabe mostrando essas deficiências das piores formas, suscetibilidades a doenças e até anomalias fisiológicas, que são muito dificilmente diagnosticadas pelo publico orquidófilo amador. As literaturas técnicas conhecidas para podridão mole são unanimes ao apontar a adubação em Cálcio como uma das medidas de vital importância para prevenção da doença, e eu não poderia ignorar esse aspecto neste trabalho.
A infecção dos tecidos vegetais: Muito bem, aqui vamos usar um pouco do que aprendemos acima, sabemos que a água transporta e facilita a entrada do agente causal da doença na planta propiciando a sua instalação nos tecidos vegetais, agora, como podemos usar esse conhecimento?
Pois bem, se existe transporte, é porque existe o inoculo vivo da bactéria em nosso orquidário, por isso eu quero falar aqui de um método de tratamento muito importante, que é o tratamento preventivo; se existe a bactéria e ela pode se usar da chuva para infectar o tecido vegetal, o que seria da bactéria se a gente conseguisse eliminar o inoculo dela antes da mesma receber os elementos indispensáveis para sua propagação? Quero defender o fato de que nós podemos tratar a bactéria antes que ela consiga se instalar nos tecidos vegetais, e como faremos isso ? Tratando o orquidário principalmente antes das chuvas, e para isso precisamos conhecer um poucos sobre produtos químicos para tratamentos fitossanitários.
Produtos químicos para tratamentos fitossanitários: Vamos começar falando sobre a desinfecção do ambiente do orquidário, das ferramentas, do estrado que suporta as plantas e até mesmo das próprias plantas; Tenho usado nesse tipo de trabalho um produto comercial chamado Quatermom, o produto trata-se de um bactericida e bacteriostático à base de Cloreto Benzalcônio, molécula pertencente ao grupo químico dos Amônios quaternários. O que se sabe sobre os Amônios quaternários é que os produtos pertencentes a esse grupo químico tem o poder de destruir germes e possui a propriedade de desnaturar proteínas, o que seria dizer a grosso modo que tem o poder de dissolver a bactéria, tenho usado esse produto na dose de 1,5 ml por litro de água pulverizado sobre as plantas antes das chuvas e nos horários mais frescos do dia e a dose de 2,5 ml por litro de água para desinfecção das ferramentas mas principalmente nas bancadas e estrados em que estão comportadas as plantas, antes das chuvas, principalmente em bancadas que já comportaram plantas infectadas. Notei com o tempo, que até os respingos de água provenientes das bancadas que já comportaram plantas doentes, podiam contaminar as plantas saudáveis, principalmente se a planta sadia, recebem por um determinado momento durante as chuvas, algum tipo de goteira constante sobre suas folhas. Nessas doses, não tenho tido casos de fitotoxicidade em minhas plantas, e quando trabalho com a dose para desinfeção das bancadas, evito que os jatos to pulverização atinjam as folhas das plantas. Gostaria de ressaltar aqui, que o Quatermom não é um produto de alta toxidez, porém aconselho que não deixem de tomar os devidos cuidados como uso de EPI no seu manuseio. Outra coisa muito importante é que não existe recomendação desse produto para pulverização foliar, faço as mesmas e me responsabilizo pelos resultados obtidos em meu orquidário, más fica sob a responsabilidade de cada um a aplicação do mesmo sobre suas plantas, mas repito, desconheço casos de toxidez nas plantas com uso dessas dosagens. Quanto ao resultado obtido, tem sido extremamente satisfatório.
Após cada chuva, costumo usar o Ridomil Gold, nas doses indicadas pelo fabricante para a cultura do tomateiro, e cabe lembrar que é importante intercalar as aplicações com algum outro fungicida de amplo espectro a fim de impedir surgimento de organismos resistentes.
Desinfecção de ferramentas e demais matérias usados no manejo podem ser feitas com o Quatermom na dose de 2,5 ml por litro de água.
Tratamento com plantas infectadas: Muito bem, plantas infectadas é sinônimo de presença de inoculo da doença, o que significa que a planta deve ser removida imediatamente do meio das plantas sadias, a fim de ser devidamente tratada em ambiente que impossibilite a transmissão para as demais plantas. Quanto ao tratamento, consiste no na remoção da folha infectada e posterior tratamento cicatrizante do ferimento, que eu particularmente faço com aplicação de creme dental no local, e conheço orquidófilos que usam pó de canela com bons resultados também, cabe lembrar que a planta deve ficar em local isolado, deve-se reduzir ao máximo as regas e quando fazer-la, evitar que atinjam as folhas, a planta só deve ser retomada a seu local, após ser novamente exposta a local onde recebendo a chuva direta em suas folhas e sendo tratada como todas as outras, não manifeste mais os sintomas por pelo menos 3 meses.
Tratos culturais: Os tratos culturais, por mais cuidadoso que sejamos, sempre gera algum ferimento nas plantas, o que seguido de uma boa chuva pode virar um grande desastre, conheço casos de plantas que em situação de pós transplante receberam chuvas diretas, e houve perda de quase a totalidade do lote, de forma que a recomendação seria manter as plantas em ambiente protegido de chuva direta por alguns dias após o transplante ou tratos culturais que possam ter causado ferimentos, a fim de que os ferimentos possam se cicatrizar, seguido de uma pulverização com bactericida antes de retomá-la a seu local definitivo.
Basicamente, esses são os principais meios de se conter a podridão mole em orquidários não cobertos em plástico, a boa observância de todos esses cuidados, certamente trará resultados muito satisfatórios, embora, algum índice de infecção sempre poderá ocorrer, isso porque existem fatores não controláveis que também influenciam nessa questão, como por exemplo, a susceptibilidade genética da planta, mas enfim, cabe a nós tomar os cuidados necessários, e se por ventura a natureza não nos é propicia a todo momento, pelo menos não nos culparemos pela perda de uma planta querida !
